sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Por uma educação mais espiritual.


Revista Bons Fluidos - 09/2010








O ensino religioso no Brasil está mudando. Novas propostas, que contemplam o estudo de várias doutrinas e valores humanos, como ética, respeito, fraternidade e tolerância, trazem uma perspectiva espiritual mais digna para futuras gerações de brasileiros.


Em vez de apresentar uma única linha espiritual, em algumas escolas, a aula de religião trata de várias delas, e sem nenhum tipo de privilégio. Líderes humanitários, como Gandhi, Madre Teresa de Calcutá ou Martin Luther King, representantes exemplares de suas respectivas religiões, são personagens dessa nova pedagogia. Ampla, aberta e desvinculada de uma única doutrina, essa abordagem foi adotada em algumas escolas particulares e públicas do Brasil. Mas ainda há muita resistência à mudança. "O assunto é polêmico porque desvincular religião de espiritualidade ainda fere alguns interesses.


A espiritualidade pode ser vivenciada em vários caminhos, já a religião se apresenta como alternativa única e exclusiva. Está mais do que na hora de adotarmos um modelo de ensino religioso mais abrangente", diz Dora Incontri, organizadora do I Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade, que acontece de 4 a 6 de setembro em São Paulo. No evento, muitos autores especializados vindos de vários países vão discutir como implementar um modelo pedagógico de ensino religioso mais aberto e dinâmico nas escolas. "Abrir espaço para outras formas de viver a espiritualidade estimula a tolerância religiosa e incentiva o respeito e o sentido de fraternidade que deve prevalecer entre os seres humanos", diz Dora, que tem graduação e pós-graduação em pedagogia e é autora de vários livros didáticos especializados nesse assunto.
Em entrevista exclusiva para BONS FLUIDOS, a pedagoga fala de alguns aspectos dessa discussão, essencial para a formação de crianças e jovens brasileiros.


BF - Qual o panorama atual do ensino religioso no Brasil?
DI - A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional prevê a inserção do ensino religioso na escola pública do Brasil como matéria optativa, mas cada estado adota uma legislação diferente a esse respeito. A melhor legislação, a meu ver, é a de São Paulo, pois não admite o ensino confessional dentro da escola pública, isto é, o padre, o pastor, o rabino ou o catequista não podem ensinar a sua religião como a única ou a melhor. Em geral, quem cuida do ensino religioso é o professor de história, de filosofia, de sociologia ou equivalente. Isso já sinaliza uma visão mais aberta. Porém, ainda assim, há conflitos. Se ensinar uma só religião é impositivo e dogmático, tratar as religiões apenas no seu aspecto histórico, antropológico, social ou filosófico também é limitante, pois essa abordagem pode incluir um olhar cético, distante e até desrespeitoso sobre as religiões.


BF - Qual é a saída, então?
DI - Nossa proposta combina mais com a perspectiva histórica, pois não pretende impor a doutrina de nenhuma religião particular, mas também não trata o tema de forma distante e racional. Nos meus livros e projetos, as várias religiões são apresentadas de maneira empática e cativante, sempre com respeito à fé de cada um.


BF - E como é aplicado o ensino religioso nas escolas brasileiras nos dias de hoje?
DI - A escola pública, em geral, não adota livros de ensino religioso, pois o governo não indica nem fornece esse tipo de material. Com exceção de São Paulo, onde é um professor, geralmente de história, que cuida dessa disciplina, no resto do Brasil candidatam-se à tarefa catequistas, pastores e padres, que lecionam como voluntários, já que, além de optativas, as aulas não são pagas.
Isso é ruim, pois torna o ensino religioso confessional, doutrinário e favorável a uma única crença, sem incluir outras linhas espirituais minoritárias. As escolas particulares mais fechadas, especialmente as religiosas, privilegiam uma religião ou excluem a apresentação de outras práticas espirituais. Mas também existem as mais abertas, sejam católicas ou não, que optam por um ensino plural, inter-religioso, em que se incluem os vários caminhos espirituais. A mudança está começando por essas escolas, particulares e abertas, nos grandes centros urbanos. Mas isso ainda é considerado muito pouco.


BF - Por que é tão importante acrescentar a dimensão espiritual no currículo escolar?
DI - O ser humano tem uma lado espiritual que precisa ser respeitado. Uma educação que não contemple essa dimensão é uma educação aleijada. Hoje, existem pesquisas científicas, realizadas por médicos, psicólogos ou psiquiatras, que afirmam que a espiritualidade tem um impacto extremamente positivo na saúde e na qualidade de vida. Outra razão para se introduzir essa matéria nas escolas é que 99% da humanidade adota algum tipo de prática espiritual. Uma escola que não considere esse fato não integra as características da sociedade, alicerce de uma boa educação. O ensino inter-religioso também mostra a tolerância e o respeito com relação a todos os caminhos espirituais. Mas, como existem traumas históricos relacionados à imposição religiosa, com seus dogmatismos e repressões, é preciso tomar cuidado para que esse resgate não favoreça um novo tipo de fanatismo.


BF - Nesse sentido, qual seria, então, o grande argumento contra o ensino inter-religioso?
DI - Seria o argumento de que esse ensino deve ser feito no âmbito da igreja, no templo ou na família. Nesse caso, porém, o ensinamento se limita à religião adotada pelos familiares, sem referência a outras formas de expressão da espiritualidade. Ora, uma pessoa pode muito bem não ser católica e se identificar com as palavras de São Francisco de Assis ou se inspirar no exemplo da Madre Teresa de Calcutá; pode não ser hindu e apreciar a política da não-violência de Ghandi. Eu e o professor Alessandro Cesar Bigheto, também pedagogo, somos coautores de livros em que usamos os modelos éticos dos grandes líderes espirituais. Enquanto isso, nas escolas tradicionais, conquistadores e estrategistas, como Napoleão Bonaparte ou Alexandre da Macedônia, são apresentados como referências de grandes seres humanos. O objetivo da nossa proposta é inserir na educação valores humanos, como ética, justiça, lealdade, fraternidade, respeito. No entanto, esses valores têm origem religiosa, e isso não se pode ocultar.


BF - O que é necessário para a escola mudar e adotar uma educação espiritual mais aberta?
DI - A mudança depende muito do apoio de um número maior de diretores de escolas, professores, estudantes de pedagogia, mães e pais, legisladores e profissionais da mídia. Daí a importância do I Congresso de Educação e Espiritualidade, que discutirá temas ligados ao futuro do ensino religioso, tanto no Brasil como no mundo. Nele, estarão reunidos professores universitários ligados ao assunto e grandes especialistas internacionais, que discutirão como e onde essa transição está acontecendo.

Muito bom saber que existem profissionais empenhados na evolução deste tema.
Com nossas crianças completamente voltadas para a espiritualidade e ávidas por conhecimento, esperamos que aqui na Terra as coisas avancem rumo à trazer luz e conhecimento aliados a pedagogia, para o melhor desevolvimento dos nossos pequenos na espiritualidade e religiosidade, vitais para o crescimento de todos. beijos Adri.
*******************************************************************
Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/educacao/ensino-religioso-brasil-doutrinas-valores-humanosetica-respeito-fraternidade-tolerancia-594242.shtml