terça-feira, 23 de agosto de 2011

Entrevista Brilhante com a escritora Tatiana Belinky.


A história de vida de Tatiana Belinky é tão emocionante quanto os livros que ela escreve para as crianças.
Nascida na Rússia, poliglota e escritora desde sempre, chegou ao Brasil aos 10 anos, fugindo com a família das mazelas da guerra civil provocada pela revolução comunista que,
em 1917, fez nascer a antiga União Soviética.
Seu primeiro livro infantil, Limeriques (Ed. FTD), foi publicado em 1987.
Hoje, aos 89 anos, ela continua escrevendo à mão, com uma caligrafia que não envelhece com o passar do tempo.


A BRUXA BOA DOS LIVROS INFANTIS

Seu sonho era usar chapéu pontudo para fazer arte à vontade.
Hoje, 100 livros e muitas travessuras depois, Tatiana Belinky é uma das principais escritoras infantis do país.

Como estimular uma criança de 03 anos a ler?

Tatiana Belinky: Não fico me preocupando com idade. Escrevo o que me dá vontade naquele dia, e a faixa etária que me escolha. Mas o fundamental é ler histórias, ter sempre muitos livros por perto e cantar. Música é fundamental, mas tem de ser de qualidade. É por isso que, no mundo inteiro, existem as músicas de acalanto. Elas são feitas para assustar, mas a letra não importa. A criança ouve o acalanto, depois a voz da mamãe e, em seguida, dorme muito bem.

Qual o significado da fantasia no universo da criança?

Tatiana Belinky: A fantasia é tudo. Sempre digo aos pequenos que o livro é um objeto mágico, muito maior por dentro do que por fora. Por fora, ele tem a dimensão real, mas dentro dele cabe um castelo, uma floresta, uma cidade inteira... Um livro a gente pode levar para qualquer lugar. E com ele se leva tudo

Porque os contos cumulativos - aqueles em que sucessivamente se vão acrescentando novos elementos, funcionam tão bem para os bebês?

 Tatiana Belinky: Todo mundo gosta de repetição, inclusive as crianças, porque fica mais fácil de memorizar. Quem gosta demais de alguma coisa sempre quer experimentá-la de novo. Isso vale para tudo: do prato que você não se cansa de pedir no restaurante ao livro que a gente lê e relê inúmeras vezes.

Livro Infantil que se preze dever ter "moral da história" ?

Tatiana Belinky: Não gosto disso. Uma vez, a dona Benta contou uma história cuja moral era "fazer o bem sem olhar a quem".
A Emília discordou: "Para os maus, pau!".
Que me desculpe a Capitu (personagem do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis), mas a Emília é a mulher mais inteligente do Brasil!
E, além de tudo, é mágica!
Eu queria ser mágica. Queria ser uma bruxa.
Mas bruxa bonita, como a madrasta da Branca de Neve.
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Dica de Livro:

UM CALDEIRÃO DE POEMAS
62 poemas traduzidos,
adaptados ou escritos por Tatiana Belinky e ilustrados por 25 artistas


Um belo poema pode revelar um mundo novo, pode fazer as pessoas pensarem sobre os mistérios da vida ou simplesmente deixar o leitor mais feliz. Em Um caldeirão de poemas, Tatiana Belinky apresenta textos alegres ou tristes, divertidos ou sérios; poemas que falam de aventuras, de amor, de saudade e de trabalho; composições feitas para serem lidas em voz alta ou em silêncio.


Entre os poemas que podem ser declamados estão quadrinhas populares, traduzidas pela autora do russo, do inglês e do alemão, e textos da própria Tatiana, como "Cantiga famélica". Nele, uma "jacaroa" faminta devora tudo o que vê pela frente. Entre os poemas de autoria desconhecida está "O senhor Ninguém", em que crianças descrevem um homenzinho invisível que faz estripulias pela casa. Outro poema de autor anônimo é o hilariante "Problema", sobre uma centopéia que tropeça nas próprias pernas.

Mas, além de divertir, a poesia também pode apresentar novas visões de mundo. Em poesia, é possível conversar com o céu, como prova um poema do escritor russo Liermontov, "A última nuvem". Nessa linguagem diferente também é possível falar de assuntos universais, como o amor, de forma sempre nova, como o fazem os poetas alemães J. W. von Goethe, em "Rosinha do prado", e Heinrich Heine, em "A Lorelei". Outros escritores consagrados que ganham tradução e adaptação no livro são Pushkin, Lewis Carroll, Walt Whitman, Bertolt Brecht e Robert Louis Stevenson.

Os textos de autoria de Tatiana também são destaque nesse caldeirão. O bom humor dá o tom em poemas como "Boa minhoca", "Sem medo do medo", "Que delícia!" e em seus "limeriques" (inspirados nos limericks, poemas irlandeses tradicionais). A escrita de Tatiana Belinky consegue deixar leitores de todas as idades com a inconfundível sensação de alegria que a boa poesia é capaz de proporcionar.




Texto da entrevista: Julia Priolli